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Quem ganha e quem perde na era do streaming: o novo mapa da indústria cultural

Da crise da pirataria ao catálogo infinito, a assinatura mensal redesenhou o poder na música e no cinema — enriqueceu plataformas e superastros, espremeu o artista médio e mudou até o formato das canções.

Daniele Morais
28 de julho de 2026 · 6 min de leitura
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Quem ganha e quem perde na era do streaming: o novo mapa da indústria cultural
Imagem: "film reels" by big-ashb is licensed under CC BY 2.0. To view a copy of this license, visit https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/.

Em pouco mais de uma década, o streaming deixou de ser curiosidade tecnológica para se tornar a espinha dorsal da indústria cultural. A música que toca no fone de ouvido, o filme visto no sofá de casa e a série comentada no grupo da família chegam, hoje, quase sempre pela mesma via: uma assinatura mensal. Essa mudança de hábito, aparentemente simples, redesenhou por completo quem ganha dinheiro com cultura — e quem ficou pelo caminho.

Da prateleira ao catálogo infinito

Para entender o tamanho da transformação, é preciso voltar ao início dos anos 2000. A indústria fonográfica vivia sua pior crise: programas de compartilhamento de arquivos, como o Napster, popularizaram o download gratuito e derrubaram as vendas de CDs no mundo inteiro. A resposta veio primeiro com as lojas digitais, que vendiam faixas avulsas, e depois com uma ideia mais radical: em vez de vender a música, alugar o acesso a ela. O Spotify, criado na Suécia, transformou esse modelo em padrão global — hoje qualquer assinante carrega no bolso um catálogo com dezenas de milhões de faixas.

No audiovisual, a trajetória foi parecida. A Netflix nasceu como locadora de DVDs pelo correio nos Estados Unidos e, ao migrar para a transmissão pela internet, enterrou de vez o modelo das videolocadoras — a falência da gigante Blockbuster virou o símbolo dessa virada. Em seguida, a empresa deu um passo além: passou a produzir filmes e séries próprios, obrigando estúdios centenários de Hollywood a criar seus próprios serviços de assinatura para não perder o espectador.

Música: o fim do álbum como unidade econômica

Na música, a lógica do streaming inverteu prioridades. Antes, o produto era o álbum: o artista passava meses no estúdio, lançava um disco e vivia da venda daquele conjunto de canções. Agora, o produto é a atenção. As plataformas remuneram por execução, com valores que correspondem a frações de centavo por audição — o que significa que apenas volumes gigantescos de reprodução geram receita relevante.

Essa matemática criou vencedores claros. As plataformas ficam com fatia importante de cada assinatura. As grandes gravadoras, que detêm os catálogos mais valiosos e negociam licenças em bloco, recuperaram o fôlego perdido na era da pirataria. E os superastros, capazes de acumular bilhões de execuções, faturam como nunca. O ouvinte também ganhou: por um valor mensal próximo ao de uma pizza, tem acesso a praticamente toda a história da música gravada.

Os perdedores estão no meio da pirâmide. O artista independente ou de nicho, que antes sobrevivia vendendo alguns milhares de discos para um público fiel, descobriu que o mesmo público, ouvindo suas músicas no streaming, gera uma receita muito menor. O resultado é conhecido de qualquer músico brasileiro: a renda migrou para os shows, as feiras, o merchandising e as redes sociais. A gravação, que já foi o centro do negócio, virou quase um cartão de visitas.

Houve ainda efeitos estéticos. Como as plataformas contabilizam a execução logo nos primeiros segundos de audição, as canções ficaram mais curtas e diretas, com refrões antecipados. As playlists de humor e ocasião — música para treinar, para relaxar, para trabalhar — passaram a valer tanto quanto o rádio de antigamente, e entrar nelas virou obsessão da indústria. Curiosamente, a reação também veio: o vinil, dado como morto, voltou a crescer ano após ano e virou objeto de desejo justamente por oferecer o que o streaming não tem — posse, ritual e escuta atenta.

Cinema: a janela que encolheu

No cinema, a revolução atacou um pilar centenário: a chamada janela de exibição. Durante décadas, um filme estreava na sala escura, meses depois chegava ao DVD, em seguida à TV paga e, por fim, à TV aberta — cada etapa gerando uma nova rodada de receita. O streaming comprimiu esse ciclo. Muitos títulos passaram a estrear diretamente nas plataformas, e a pandemia acelerou o processo, com estúdios lançando superproduções em casa e nas salas ao mesmo tempo.

Quem ganhou? O espectador, que assiste a produções do mundo inteiro sem sair de casa, e criadores de países fora do eixo tradicional de Hollywood, que encontraram vitrine global — séries coreanas, espanholas e brasileiras provaram que uma boa história legendada viaja. Quem perdeu? As salas de cinema, que passaram a depender de poucos blockbusters para sobreviver, e boa parte dos profissionais do audiovisual: os direitos residuais, que remuneravam elenco e roteiristas a cada reexibição na televisão, encolheram no modelo de assinatura. Não por acaso, o tema esteve no centro das greves históricas de roteiristas e atores que pararam Hollywood em 2023.

O caso brasileiro

O Brasil vive essa transformação com intensidade particular. O país está entre os maiores mercados de streaming do planeta em número de usuários, e o gosto nacional moldou as plataformas: sertanejo, funk, pagode e gospel dominam os rankings locais, com números de execução que impressionam o mundo. O streaming também encurtou o caminho da música brasileira para fora — artistas do país passaram a aparecer em paradas globais e a colecionar ouvintes na Europa, na África e no restante da América Latina, algo raríssimo na era do disco físico.

No audiovisual, produções brasileiras originais de plataformas internacionais levaram histórias nacionais a dezenas de países. Ao mesmo tempo, o setor discute como garantir que as plataformas estrangeiras invistam em produção local e remunerem de forma justa quem cria — debate que envolve regulação, cotas de conteúdo nacional e direitos autorais, e que deve ocupar o país por muitos anos.

O que muda na vida do espectador

Para o leitor, algumas lições práticas emergem desse novo cenário. A primeira: o catálogo do streaming não é seu. Filmes e discos entram e saem das plataformas conforme contratos de licenciamento — quem quer garantir acesso permanente a uma obra ainda precisa comprá-la. A segunda: a soma das assinaturas merece atenção. Com a multiplicação dos serviços, o pacote completo pode custar mais do que a antiga TV por assinatura; rotacionar serviços, assinando um por vez e cancelando ao terminar o que interessava, virou estratégia comum de economia doméstica.

A terceira lição interessa a quem se importa com os artistas: no streaming, ouvir ajuda pouco; comprar ingresso, disco físico e camiseta ajuda muito. Se a receita da gravação encolheu, o apoio direto do público tornou-se a diferença entre uma cena musical viva e um deserto cultural.

Um contrato ainda em negociação

O streaming resolveu o problema que o originou — a pirataria — e devolveu à indústria cultural um modelo de negócio viável. Mas o novo contrato entre plataformas, criadores e público segue em disputa. De um lado, o acesso mais amplo à cultura já visto na história; de outro, uma concentração de poder inédita nas mãos de poucas empresas globais e uma remuneração que ainda deixa a base da pirâmide criativa descoberta. O desfecho dessa negociação — nos tribunais, nos parlamentos e nas escolhas diárias de quem aperta o play — vai definir não apenas quem ganha dinheiro com cultura, mas que cultura será possível fazer.

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