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Explosões solares: como o Sol pode derrubar satélites, GPS e a rede elétrica

Erupções na superfície da nossa estrela lançam bilhões de toneladas de plasma pelo espaço — e a infraestrutura da vida moderna está na linha de tiro

Daniele Morais
30 de julho de 2026 · 6 min de leitura
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Explosões solares: como o Sol pode derrubar satélites, GPS e a rede elétrica
Imagem: "Life Science Laboratory UMass 5" by Jon Platek is licensed under CC BY-SA 3.0. To view a copy of this license, visit https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/.

O nome deste portal não é por acaso. Explosões solares estão entre os fenômenos mais violentos do Sistema Solar: em questão de minutos, uma única erupção libera energia equivalente à de bilhões de bombas atômicas. Na maior parte do tempo, esse espetáculo acontece a cerca de 150 milhões de quilômetros de distância sem nenhuma consequência para nós. Mas, quando a explosão aponta para a Terra, seus efeitos podem ser sentidos em satélites, no sinal de GPS do celular e até na rede elétrica que ilumina as cidades.

Entender esse fenômeno deixou de ser assunto restrito a astrônomos. A vida moderna se apoia em uma infraestrutura espacial e elétrica cada vez mais sensível ao humor do Sol — e é por isso que agências espaciais, operadores de energia e governos tratam o chamado clima espacial como questão estratégica.

O que é, afinal, uma explosão solar

O Sol é uma esfera de plasma em rotação, atravessada por campos magnéticos que se enrolam e se retorcem como elásticos. Onde esse campo fica mais intenso surgem as manchas solares, áreas escuras que funcionam como reservatórios de energia magnética. Quando as linhas do campo se rompem e se reconectam de forma abrupta, essa energia é liberada de uma vez: nasce uma explosão solar, ou flare.

A explosão emite radiação dos raios X à luz visível, que viaja na velocidade da luz e chega à Terra em cerca de oito minutos. Os cientistas classificam os flares em categorias de intensidade crescente — A, B, C, M e X —, em que cada letra representa um salto de dez vezes na potência. Um flare de classe X, o topo da escala, é capaz de provocar apagões de rádio imediatos no lado iluminado do planeta.

Mas o flare costuma ser só o primeiro ato. As erupções mais fortes vêm acompanhadas de uma ejeção de massa coronal: bilhões de toneladas de plasma magnetizado arremessadas pelo espaço a milhões de quilômetros por hora. Essa nuvem leva de um a três dias até a Terra — e é a principal responsável pelas tempestades geomagnéticas.

Tempestade geomagnética: quando o escudo da Terra é sacudido

A Terra é protegida por um escudo invisível, a magnetosfera, gerado pelo movimento do ferro líquido no núcleo do planeta. Quando a ejeção de massa coronal colide com esse escudo, a magnetosfera é comprimida e chacoalhada, induzindo correntes elétricas na alta atmosfera e no próprio solo — é a tempestade geomagnética, classificada de G1 (fraca) a G5 (extrema).

O efeito mais belo dessa colisão são as auroras: partículas aceleradas mergulham na atmosfera e fazem o céu brilhar em verde e vermelho. Normalmente restritas às regiões polares, em tempestades severas elas descem para latitudes muito mais baixas. Foi o que aconteceu em maio de 2024, quando a tempestade mais intensa em cerca de duas décadas pintou o céu de vermelho em lugares improváveis — com registros até no extremo sul do Brasil, algo raríssimo.

Lições da história: de 1859 ao apagão do Quebec

O caso mais extremo já documentado ocorreu em 1859, o chamado Evento Carrington. A tecnologia elétrica da época se resumia ao telégrafo — e mesmo assim houve caos: linhas soltaram faíscas, operadores levaram choques e auroras foram vistas em regiões tropicais. Estudos estimam que um evento daquela magnitude causaria hoje prejuízos globais na casa dos trilhões de dólares.

Em março de 1989, uma tempestade severa derrubou em minutos a rede elétrica do Quebec, no Canadá, deixando milhões de pessoas sem energia por cerca de nove horas em pleno inverno. Em 2003, as tempestades do Halloween danificaram satélites e forçaram desvios de rotas aéreas polares. E, em 2022, dezenas de satélites Starlink recém-lançados caíram porque uma tempestade moderada expandiu a alta atmosfera e aumentou o atrito sobre eles.

Satélites, GPS e rede elétrica: os três alvos principais

Satélites

Partículas energéticas penetram nos circuitos eletrônicos e podem corromper memórias, desligar sistemas ou danificar componentes de forma permanente. Além disso, a atmosfera aquecida pela tempestade se expande e aumenta o arrasto sobre satélites de órbita baixa, encurtando sua vida útil ou derrubando-os.

GPS e navegação

O sinal de GPS precisa atravessar a ionosfera, uma camada eletrificada da alta atmosfera. Durante tempestades, essa camada fica turbulenta, provocando a cintilação: o sinal chega distorcido ou some por completo. O erro de posicionamento pode saltar de centímetros para dezenas de metros — um problema sério para aviação, navegação marítima, plataformas de petróleo e para a agricultura de precisão, que depende de correção centimétrica para plantar e colher.

Rede elétrica

As tempestades induzem no solo as chamadas correntes geomagneticamente induzidas, que entram na rede pelos pontos de aterramento. Transformadores de alta tensão, projetados para corrente alternada, recebem então uma corrente quase contínua que os satura e superaquece. No pior cenário, transformadores gigantes — que custam milhões e levam meses para ser substituídos — sofrem danos permanentes, transformando um apagão de horas em uma crise de semanas.

E o Brasil nisso tudo?

O Brasil tem uma relação particular com o clima espacial. Parte do território fica sob a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, região onde o campo magnético terrestre é mais fraco. Satélites que sobrevoam essa área recebem doses maiores de radiação — tanto que muitos desligam instrumentos sensíveis ao cruzá-la.

Além disso, por estar na faixa equatorial, o país sofre de forma crônica com a cintilação ionosférica, que degrada o GPS em certas noites mesmo sem tempestade alguma. Não por acaso, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mantém o Embrace, programa que monitora em tempo real a ionosfera e o campo magnético sobre a América do Sul. Some-se a isso um sistema elétrico interligado de dimensões continentais, com linhas de transmissão de milhares de quilômetros — exatamente o tipo de estrutura que funciona como antena para correntes induzidas.

Dá para prever?

Sim, com limites. Observatórios espaciais monitoram o Sol 24 horas por dia e permitem ver manchas solares crescendo dias antes de qualquer erupção. O flare em si não dá aviso — sua radiação chega junto com a luz —, mas a ejeção de massa coronal, a mais perigosa, leva de um a três dias até a Terra. Essa janela permite ações concretas: operadores de rede elétrica redistribuem carga e protegem transformadores, satélites entram em modo de segurança, companhias aéreas alteram rotas e agências emitem alertas de navegação.

A atividade do Sol segue um ciclo de aproximadamente 11 anos, alternando períodos calmos e agitados. Nos máximos do ciclo, flares e ejeções se tornam muito mais frequentes — e a probabilidade de um evento extremo aumenta.

Um risco raro, que cresce junto com a nossa dependência

O Sol não mudou: tempestades como a de 1859 sempre aconteceram e voltarão a acontecer. O que mudou fomos nós. Em um século e meio, saímos do telégrafo para uma civilização pendurada em satélites, GPS e redes elétricas interligadas. A boa notícia é que, ao contrário de um terremoto, uma grande tempestade solar avisa que está a caminho. O desafio é garantir que, quando o aviso vier, satélites, redes e governos saibam exatamente o que fazer. Vigiar a nossa estrela deixou de ser curiosidade científica: é seguro de vida da infraestrutura moderna — e é também a missão que dá nome a este portal.

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