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ONU e Conselho de Segurança: como funciona o poder que decide guerras

Entenda a estrutura das Nações Unidas, o peso do veto dos cinco membros permanentes e por que o Brasil insiste há décadas em um assento permanente no Conselho

Daniele Morais
1 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
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ONU e Conselho de Segurança: como funciona o poder que decide guerras
Imagem: "world map 3D" by kcp4911 is licensed under CC BY 2.0. To view a copy of this license, visit https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/.

A cada crise internacional — uma guerra, uma pandemia, uma catástrofe humanitária — os olhos do mundo se voltam para um edifício à beira do East River, em Nova York. Ali funciona a sede da Organização das Nações Unidas, criada com uma missão explícita: impedir que a humanidade repetisse a tragédia da Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, a ONU é, ao mesmo tempo, indispensável e frustrante. Salva vidas todos os dias por meio de suas agências, coordena campanhas de vacinação, alimenta refugiados e regula do tráfego aéreo ao correio internacional — mas costuma travar exatamente nos momentos mais graves, quando as grandes potências se enfrentam. Entender como a organização funciona na prática, e por que o Conselho de Segurança concentra tanto poder, é a chave para ler o noticiário internacional sem se perder.

Uma organização nascida do trauma da guerra

A ONU foi fundada em 1945, na Conferência de São Francisco, quando dezenas de países assinaram a Carta das Nações Unidas. Ela substituiu a Liga das Nações, experiência criada após a Primeira Guerra Mundial que fracassou justamente por não ter instrumentos para conter potências agressoras. Os fundadores da ONU aprenderam a lição a seu modo: criaram uma assembleia onde todos os países têm voz — e um conselho restrito onde poucos têm, de fato, a última palavra.

O Brasil esteve presente desde a origem: é membro fundador e mantém uma tradição diplomática conhecida, a de proferir o primeiro discurso no debate geral da Assembleia Geral, que reúne chefes de Estado e de governo todos os anos em Nova York.

Como a ONU é organizada por dentro

A Carta prevê seis órgãos principais. Os mais relevantes no dia a dia são quatro:

  • Assembleia Geral: reúne todos os países-membros — hoje mais de 190 —, cada um com direito a um voto, da superpotência ao microestado. Suas resoluções têm enorme peso político e simbólico, mas, em regra, não são obrigatórias.
  • Conselho de Segurança: o único órgão cujas decisões são vinculantes para todos os membros. É dele que saem sanções, embargos e autorizações para o uso da força.
  • Secretariado: a máquina administrativa, chefiada pelo secretário-geral, que atua como mediador, porta-voz e gestor de milhares de funcionários espalhados pelo mundo.
  • Corte Internacional de Justiça: sediada em Haia, nos Países Baixos, julga disputas entre Estados — fronteiras, tratados, responsabilidade internacional.

Completam o desenho o Conselho Econômico e Social e o Conselho de Tutela, este último sem função prática desde que os antigos territórios sob tutela se tornaram independentes. Ao redor desse núcleo gravita a constelação de agências e fundos que o público conhece melhor: Organização Mundial da Saúde, Unicef, Unesco, ACNUR (a agência para refugiados) e FAO (alimentação e agricultura), entre muitos outros. É essa rede que executa a parte silenciosa e eficaz do sistema: campanhas de vacinação, socorro em desastres, padrões técnicos que fazem aviões, navios e cartas cruzarem fronteiras.

O Conselho de Segurança: onde mora o poder de verdade

O Conselho tem quinze integrantes. Dez são eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos, distribuídos por regiões do mundo. Os outros cinco são permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — os principais vencedores da Segunda Guerra Mundial. Esses cinco, conhecidos como P5, têm o instrumento mais poderoso da diplomacia: o veto. Basta um voto contrário de um membro permanente para derrubar qualquer resolução, mesmo que os outros catorze estejam a favor.

Na prática, o veto funciona como um seguro: nenhuma grande potência aceita ficar sujeita a decisões contrárias aos seus interesses vitais. Foi o preço político para que todas topassem entrar — e permanecer — no sistema. O efeito colateral é conhecido: quando o conflito envolve diretamente um membro permanente ou um aliado próximo, o Conselho tende à paralisia. Foi assim durante as décadas da Guerra Fria e continua sendo assim nas crises em que os interesses das grandes potências colidem de frente.

O que o Conselho consegue fazer quando funciona

Quando há consenso, o Conselho tem dentes. Pode impor sanções econômicas e embargos de armas, criar tribunais internacionais, autorizar operações militares e enviar missões de paz — os famosos capacetes azuis, tropas cedidas pelos países-membros para estabilizar zonas de conflito. O Brasil tem longa tradição nessa área: participou de dezenas de missões e liderou por anos o componente militar da missão da ONU no Haiti, a Minustah, uma das operações mais marcantes da história recente da diplomacia militar brasileira.

A reforma que nunca chega

Poucos temas geram tanto consenso retórico e tão pouco resultado quanto a reforma do Conselho. O argumento é simples: o mundo mudou desde 1945, mas a fotografia do poder continua a mesma. O Brasil integra, com Alemanha, Índia e Japão, o chamado G4, grupo que defende a ampliação do número de assentos permanentes — e pleiteia um deles. Países africanos também reivindicam representação permanente, lembrando que boa parte da pauta do Conselho trata justamente de conflitos no continente africano.

O obstáculo é estrutural: mudar a Carta da ONU exige aprovação de dois terços da Assembleia Geral e a ratificação de todos os cinco membros permanentes. Ou seja, os maiores beneficiados pelo desenho atual têm a chave do cadeado. Enquanto isso, a discussão avança em passos minúsculos, e o assento permanente brasileiro segue como aspiração histórica da política externa nacional.

Por que isso importa para quem vive no Brasil

Pode parecer distante, mas o sistema ONU toca a vida do brasileiro comum em pontos bem concretos:

  • Saúde: as normas e os alertas da Organização Mundial da Saúde orientam a vigilância sanitária, as campanhas de vacinação e as respostas a epidemias no país.
  • Comércio e preços: sanções aprovadas pelo Conselho alteram fluxos globais de petróleo, fertilizantes e grãos — e isso chega ao bolso, do combustível ao pão, porque o agronegócio brasileiro depende de insumos importados.
  • Viagens e conexões: padrões de aviação civil, navegação e telecomunicações negociados em agências da ONU são o que permite que voos, navios e chamadas internacionais funcionem entre países diferentes.
  • Projeção do país: o Brasil é um dos países mais eleitos para o assento rotativo do Conselho de Segurança, o que dá à diplomacia brasileira voz recorrente em decisões de guerra e paz.

No fim das contas, a ONU é menos um governo mundial e mais um condomínio: as regras valem para todos, mas os moradores mais fortes têm poder de bloquear a assembleia. Ainda assim, é o único condomínio em que praticamente todos os países do planeta aceitam sentar à mesma mesa. Conhecer suas regras — quem vota, quem veta, o que obriga e o que é apenas simbólico — é o primeiro passo para entender por que algumas crises terminam em capacetes azuis e outras, em impasse. E para compreender o que o Brasil busca, há décadas, quando insiste em ter assento permanente na mesa onde o mundo decide seus conflitos.

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